segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Orgasmos mal comportados





Nos idos anos de 1960, um casal de investigadores norte-americanos, de seu nome Virgínia Johnson e William Masters, decidiu lançar uma arrojada e original investigação. Queriam eles perceber exactamente que alterações fisiológicas ocorriam durante uma relação sexual. E como bons cientistas que eram, acharam que a única forma de o saberem seria através da observação e medição sistemáticas, em laboratório, do banal acto da cópula.


Puseram anúncios a pedir voluntários e esperaram. Contra as expectativas dos mais cépticos, várias centenas de pessoas fizeram fila para participar. Lá foram ao laboratório dos cientistas, despiram-se e foram ligados a uma parafrenália impressionante de maquinarias esquisitas. Baixaram-se as luzes e deixou-se que a magia da ciência acontecesse.


Dos registos de 10.000 orgasmos de 382 mulheres e 312 homens que Masters e Johnson realizaram, duas coisas pareceram evidentes. A primeira é que muitas mulheres eram capazes do fantástico dom da multiplicação dos orgasmos, ou seja, conseguiam saltitar levemente de clímax em clímax sem precisar de dormir uma sesta para recuperar. Os homens, pelo seu lado, não sendo capazes de tal proeza, comprovaram ter algo que lhes dificulta fingir um orgasmo, a famosa da ejaculação. A emissão dos mililitros da praxe foi registada como um dos sinais evidentes de que o homem já atingiu o seu auge.


Entre vários outros pormenores maiores ou menores descobertos pela parelha de investigadores, esses dois pareciam ser bastante certos. E durante muitos e muitos anos, ambos foram assumidos como verdades no âmbito da Sexologia. Mas, afinal, a dupla maravilha estava mesmo enganada. Como os mestres tântricos já sabiam há muito tempo, os homens, desde que bem treinados, conseguem obter a dádiva dos múltiplos orgasmos e alguns sortudos têm-nos mesmo sem terem que se esforçar.


Por seu lado, como Beverly Whipple, outra investigadora norte-americana, veio a descobrir nos anos 80, as mulheres que se queixavam de fazer “xixi” durante o sexo afinal não sofriam de um estranho caso de incontinência urinária. Quando analisado tal xixi, verificou tratar-se de um liquido em tudo semelhante ao esperma, excepto que sem espermatozóides. Afinal, as mulheres, ou pelo menos algumas delas, também ejaculam, tal como os homens.


Não é novidade que homens e mulheres são muito mais parecidos do que pensávamos. Há muito que a embriologia nos tinham ensinado que, ao nível do desenvolvimento do feto, o clítoris é equivalente ao pénis, os ovários aos testículos, os grandes lábios ao escroto, e aí por diante. Os estranhos mas significativos casos de orgasmos mal comportados à luz da tradição sexológica mostram-nos assim que até no auge do prazer, também as barreiras do género se dissolvem.

Publicado na revista Pública a 19/04/2009

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