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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Guerras pornográficas e casamentos improváveis



Durante as décadas de 1970 e 80 travaram-se as chamadas guerras da pornografia nos EUA. Ao contrário do que mentes mais fantasiosas poderão pensar, não se trataram de batalhas em que as partes belicosas utilizaram dildos ou implantes de silicone como armas de arremesso, nem de conflitos em que o sexo foi a táctica privilegiada para esgotar o inimigo.


Na verdade essas guerras surgiram na sequência da criação da Commission on Obscenity and Pornography que, em 1970, publicou um relatório que determinou não existir evidência científica em como a exposição a materiais sexuais explícitos poderia causar delinquência. Até então, acreditava-se que a reacção de qualquer homem que visse um filme pornográfico seria, naturalmente, a de violar e esquadrinhar a primeira beldade indefesa que lhe aparecesse pela frente. Depois do dito relatório, os norte-americanos adultos passaram a poder visionar toda a pornografia que quisessem no aconchego do seu lar sem incorrer em pena de prisão.


Tal libertação libertina provocou várias reacções, na sua maioria adversas. Dois grupos em particular tornaram-se ferozes no combate à indústria do sexo: cristãos e feministas. Do lado da religião, criticou-se a imagem descomplexada, pois claro, que a pornografia transmite do sexo. A tal que vai contra o famoso ideal cristão que dita: não fornicarás desenfreadamente com o primeiro canalizador que te bater à porta. 

As feministas, por sua vez, eram contra a transformação da mulher em objecto sexual, típica de tais filmes de profunda complexidade intelectual. A improvável convergência desses dois grupos fez com que por vezes tenham unido forças para combater o mafarrico da pornografia.


Outro exemplo de uniões forjadas no quinto dos infernos ou no sétimo dos céus, dependendo da perspectiva, é retratada no documentário City of Borders (de Yun Suh, 2009). Em 2006, organizações de defesa dos direitos de minorias sexuais Israelitas decidiram organizar a marcha World Pride em Jerusalém. Uma das diversas consequências dessa iniciativa foi a de unir Judeus Ortodoxos e Árabes contra a realização do evento.


Partindo destes dois exemplos, é impossível não pensar quão tolerante é a intolerância. Pessoas que noutras circunstâncias nunca se sentariam à mesma mesa para tentar ultrapassar as suas divergências, são capazes de se unir no ódio contra o que ambas consideram contrário aos seus ideais. E em ambos estes casos, é da negação de diferentes aspectos da sexualidade que surgem tais uniões imprevistas. O sexo é sem dúvida um estranho catalizador (e, por vezes, canalizador) com a capacidade de juntar na mesma cama os mais improváveis parceiros.

Publicado na revista Pública em Outubro de 2009

domingo, 28 de julho de 2013

Andar por aí



Todos nós conhecemos pessoas que se queixam de não arranjar emprego, de não ter sorte, de não encontrar o amor da sua vida, de nunca lhes acontecer nada de especial ou que consideram a sua vida sentimental um aborrecimento de morte. Estas e outras queixas frequentemente encontram-se todas concentradas nas mesmas pessoas. Porém, também não é pouco frequente encontrar quem, apesar de uma vida profissional intensa e satisfatória e da posse de recursos económicos  para fazer o que bem entendem em casa, nos tempos livres ou nas férias, do ponto de vista amoroso tudo é uma desgraça.



É certo que nem todos conseguem ter o à-vontade para conhecer novas pessoas e por vezes tem-se mesmo azar com aquelas que se vão conhecendo. O mundo está cheio de pessoas indisponíveis, desequilibradas, inconstantes ou pura e simplesmente chatas. Mas também se encontram em abundância as que são interessantes, inteligentes, desimpedidas e cheias de talentos no quarto e na cozinha. Apenas há que encontrá-las, apesar de nem sempre o destino permitir que ocorram esses encontros.



Mas se isso é verdade, também o é que as tais pessoas que se queixam de nunca encontrar a paixão da sua vida muitas vezes não se esforçam minimamente para a encontrar. Ficam fechadas em casa a curtir as suas mágoas, não saem com os amigos nem vão para locais onde há gente e onde os tais  afortunados encontros podem ocorrer. Desse modo, certamente que será muito mais difícil conhecer alguém especial e apaixonar-se. O que significa que, mesmo para encontrar paixão, é necessário esforço e estar nos sítios certos, que podem ser quaisquer uns. Em suma, é necessário andar por aí. Quando menos se espera, no ginásio, na praia, na discoteca, no curso de computadores ou de Arraiolos, no centro comercial ou no comboio, tudo pode acontecer.



Mas nem sempre apenas isso basta. O princípio básico de qualquer vendedor aqui também é verdade: quanto melhor a técnica, melhor a venda. E se o produto que se quer vender é o próprio, então há que utilizar todos os recursos disponíveis. É certo que a aparência não é tudo e que, mais do que ser-se bonito por fora, é importante ser-se bonito por dentro. Mas, dito isto, também há que reconhecer que a primeira impressão é muito importante e pode determinar a ocorrência de uma chispa das que pode fazer fogo. 

Afirmar-se que se é feio também não é desculpa. Certo é que o dom da beleza não é concedido pela magia de uma fada madrinha, mas há sempre formas de contornar o que uma natureza madrasta nos concedeu com uns pozinhos de perlimpimpim. Os italianos são disso um ótimo exemplo e andar nas ruas de qualquer cidade italiana é sempre um banho de vista, mesmo quando os observados não são particularmente bonitos.



O resto é parte sorte, parte saber-fazer e parte de qualquer outra coisa que lamento informar, ninguém sabe muito bem o que é. Não existem receitas milagrosas para que as pessoas se conheçam e para que a paixão surja. Mas, quando surge, aí sim acontece magia digna dos contos de fada e a de alguns romances eróticos também.

Originalmente publicado na revista Activa em 2005

sábado, 9 de junho de 2012

Porque namoramos?





De todos os comportamentos de que o ser humano é capaz, a sedução, a corte e o namoro encontram-se decerto entre os mais bizarros. Afinal, se o fim é simples e mais ou menos anunciado – o sexo – porque desperdiçar tanto tempo e energia? Não seria mais fácil passar direto ao ato, sem nove-horas ou elaborados rituais de acasalamento?

Pois bem, parece que não. Apesar de estranho, o ato de namorar é um dos passatempos preferidos do bicho humano. São horas passadas de mão dada em conversas sobre tudo e sobre nada; são momentos de êxtase no quentinho da cama ou no refrescante chão da sala; são eternidades a fazer olhos de carneiro malmorto para aquelezinho especial, centro do nosso universo e motivo de suspiros repenicados.

Seres gregários que somos, gostamos de estar na companhia de outras pessoas. E não por acaso. Afinal, nascemos no seio de relações e sem elas não sobrevivemos. Mesmo. Não só as crianças nascem tão imaturas que, deixadas aos seus cuidados, não conseguiriam sobreviver, como é na relação com outras pessoas que se estabelece o gérmen e o substrato de tudo aquilo que irá ser a nossa vida psicológica e emocional.

Não admira, portanto, que seja em relações que encontramos a nossa felicidade, assim como muitas vezes a nossa miséria. É como se, para todo o sempre, procurássemos encontrar de novo o êxtase da relação perfeita, ou às vezes por lá próximo, que tivemos com quem cuidou de nós quando não éramos mais do que uma promessa de gente. Atiramo-nos e cabeça e deixamo-nos enredar na emoção, tão grande que não se controla e que nos deixa com os circuitos avariados. E com uma fome voraz de estar não importa onde, desde que na companhia da tal pessoa que não tem nada de especial, excepto que é a mais especial para nós.

O namoro é assim uma espécie de banquete. A única forma de controlar a fome da paixão, saciada na anulação do espaço físico entre os amantes. Existirá, afinal, coisa melhor?

sexta-feira, 23 de março de 2012

Para que serve o sexo?



O sexo é um bicho muito estranho. Leva-nos a fazer coisas para lá do razoável. Coisas que não faríamos se estivéssemos no nosso estado normal, mesmo quando estamos no nosso estado normal. Pode provocar-nos arrepios na espinha e suores frios em pleno Verão, calores imprevistos no pino do Inverno, e tremores incontroláveis em qualquer altura do ano. Ainda assim, não deixamos de o fazer. 

Antes pelo contrário, continuamos a fazê-lo exactamente porque nos causa essas e outras reações peculiares. Em suma, é algo que mexe connosco e que não compreendemos muito bem, e muito menos para que serve. Até porque existem diversas opiniões e respostas possíveis para essa premente pergunta: “Mas afinal, para que serve essa coisa do sexo?”.

Para os hedonistas serve para nos dar prazer; é mais uma forma de satisfação, entre muitas outras que o mundo nos proporciona. Para os Católicos serve o estrito propósito de fazer bebés, sendo que deverá ocorrer apenas no seio de uma relação abençoada pelo matrimónio. Para os evolucionistas tem o objetivo de permitir a continuidade da espécie. Para os Tântricos é uma forma de atingir um estado elevado de espiritualidade e transcendência. Para os pragmáticos é uma parte da vida, e pronto.

A verdade é que, ao mesmo tempo, todos têm razão e ninguém a tem. Se de facto sem sexo não seria possível a dita continuidade da espécie, verdade é também que há muito que o sexo se autonomizou das lides da reprodução. A história da contracepção é tão velha quanto a humanidade e, pelo menos desde a invenção da pílula, que deixámos realmente que ter que nos preocupar com essa coisa, por vezes incómoda, de ter filhos.

E se essa necessidade de controlar a natalidade nos diz algo, é que a grande maioria das vezes que as pessoas têm sexo não o fazem porque querem ter bebés, mas por uma qualquer outra razão.

Ainda que nem sempre tenha sido assim, hoje em dia o sexo é uma dimensão instrumental para a maioria das pessoas. Cada um vai lá buscar uma coisa diferente em função dos seus interesses e necessidades. Até porque, se realmente se descobrisse para que serve, perderia metade do interesse. É que há coisas em que a ignorância é de fato uma bênção.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Senhores de anéis



Se toda a gente conhece Barbie, a boneca da cintura maravilha, não menos conhecido é Ken, seu namorado de há 50 anos. Ken foi criado para responder à necessidade que Miss B. tinha de ter um companheiro. Certo é, porém, que ao longo da sua atribulada relação, o rapaz sempre foi considerado dispensável. É que Ken nunca teve tanta saída quanto a sua famosa namorada. Por isso, volta e meia, foi posto na prateleira.

No entanto, em 1993, Ken teve um inesperado momento de glória. Numa tentativa de modernizar o moço, a Mattel lançou o Earring Magic Ken. Ter um brinco e um colete de cabedal púrpura foram apenas dois dos motivos que tornaram essa edição de Ken popular junto da comunidade gay. O outro foi o facto dele ter ao pescoço o que muito boa gente podia jurar ser um cock-ring. Assim, apesar do esmagador sucesso de vendas, a Mattel apressou-se a retirar esse modelo do rapaz das lojas.

Para os sexualmente distraídos, um cock-ring, que numa tradução conservadora será um “anel de pénis”, como o nome indica é um aro que se coloca em torno do dito. Pode ser feito dos mais diversos materiais, da borracha ao metal, sendo que um dos mais antigos que se conhece data do século XIII e é feito de pestanas de cabra, infeliz animal! Mas existem tantos tipos de cock-rings quantas as cores do arco-íris, incluindo os vibratórios. São, regra geral, colocados na base do pénis, após cuidadosamente passar um testículo de cada vez para o seu interior e, por último, o pénis ainda flácido.

Ensina-nos o estudo da anatomia peniana que o sangue aflui ao masculino órgão pelo seu interior e que tem a sua via de escape pelos vasos sanguíneos da superfície. Apertando-se a sua base facilita-se e prolonga-se uma desejada ereção. Por esse motivo, os cock-rings têm fama de ser usados apenas por cavalheiros que necessitam de algum incentivo para manter os seus ânimos erectos. No entanto, muitos homens utilizam-no para aumentar a sensibilidade e o prazer durante o ato. Acabe-se, portanto, com a discriminação contra tão versátil acessório.

Os cock-rings não devem ser utilizados por mais de 20 minutos de cada vez ou menos se surgir desconforto. Afinal está-se a evitar a circulação de sangue no pénis. Alguns têm abertura fácil para libertar o bicho caso ele comece a ficar roxo. Os de metal deverão ser utilizados apenas por homens bem experienciados na matéria por ser mais difícil a sua remoção. O bom senso deverá prevalecer, aqui como em tudo.

Não sabemos se, antes de ter sido mais uma vez dispensado, o Ken da argola mágica teve redobrado prazer devido ao seu peculiar pendente nos momentos, presumem-se raros, de intimidade com a sua namorada on-again-off-again. Porém, para um rapaz que aos 50 anos continua a não ter pénis, isso é improvável. Entretanto, para os não castrados, os cock-rings são brinquedos que podem contribuir para uma sexualidade mais simpática. Afinal, não apenas as mulheres têm direito a usar adornos.

Originalmente publicado na revista Pública de 12/07/2009

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Os missionários e os bons selvagens


Existe o mito, tão antigo quanto falso, de que foram os missionários cristãos que inventaram a posição sexual conhecida pelo seu nome. Aquela em que a mulher se encontra, passiva como uma donzela, deitada de barriga para cima, enquanto que o homem lá vai fazendo o seu trabalho vigorosamente entretido sobre ela.

Como diversos etnógrafos e historiadores tiveram a possibilidade de documentar, tal posição é mais antiga que a cristandade e encontra-se em várias culturas independentemente da influência dos missionários. Foram encontrados vasos datados de três mil anos a.C. decorados com imagens de homens “missionando” as suas parceiras.

Entre os antigos Gregos, Romanos, Peruanos e Japoneses, essa era a posição preferida por dessa forma se reforçar a superioridade moral dos homens sobre as mulheres. Os Chineses, apesar de criativos nas artes do sexo, apreciavam essa disposição dos corpos durante o ato por acreditarem que os homens nasciam de cara virada para baixo e as mulheres de cara virada para cima. Por seu lado, entre algumas tribos em Kerala, na Índia, ainda hoje se acredita que apenas nessa posição pode ser concebido um guerreiro.

Porém, verdade é também que os primeiros missionários, ao se depararem com a diversidade copulatória dos povos de África e do Pacífico, decidiram por ordem no paraíso, usando uma boa dose de retórica e inspiração divina. Afinal, se Adão veio ao mundo antes de Eva, nunca deveria a mulher estar numa posição superior ao homem, como acontecia em terras de bons selvagens.

Apesar de popular durante séculos sem fim, a posição barriga sobre barriga caiu em desgraça em tempos modernos. Vivemos numa era em que o sexo foi kamasutrizado. O contorcionismo sexual é publicitado tanto em revistas femininas como em masculinas e espera-se que a vida íntima do comum dos mortais seja tão variada como o enredo de um filme pornográfico. A posição missionária foi acusada de opressiva do prazer feminino e passou a demissionária.

Mas será assim tão má a pobre coitada? Apesar da publicidade negativa, a posição do missionário não deixa de ter as suas vantagens. É útil, por exemplo, em dias de preguiça, em particular da mulher, quando se pretende o máximo resultado com o mínimo esforço. Em casais apaixonados, permite contacto olho no olho até à náusea. E supostamente, mas muito supostamente, é uma boa posição para se conseguir engravidar, se esse for um dos propósitos do encontro.

Limitar o sexo a apenas uma posição pode transformar a vida sexual de um casal numa obrigação enfadonha. Ser um bom selvagem na cama, mais do que um direito, deverá ser um dever. Assim, a posição do missionário nada tem de mal, desde que utilizada com conta, peso e medida. E como alguém disse, ela é um pouco como o queijo fresco. Precisa que se lhe adicionem condimentos para ganhar sabor. Já descobriu o seu?


Publicado na revista Pública em 03/05/2009

quarta-feira, 15 de junho de 2011

A filosofia da alcova, do chicote e das algemas



O ano é 1671. Escondido num canto sombrio da noite londrina, um vulto vestido de negro espera uma vítima. Uma mulher solitária aproxima-se, incauta. A criatura salta do seu canto, agarra a mulher, levanta-lhe os saiotes e açoita-a violentamente. O ataque prolonga-se até que a desgraçada começa a gritar, chamando atenções e levando o agressor a fugir noite fora. Durante vários meses, e até ser apanhado pelas autoridades, Whipping Tom, como foi chamado pela imprensa da época, provoca o temor na capital Inglesa, repetindo os seus ataques e modus operandi.

Apesar de anteceder em um século a filosofia (e a praxis) do infame Marquês, e em dois a inauguração dos termos sadismo e masoquismo (Krafft-Ebing, 1886), certo é que se adivinha na actividade de Whipping Tom uma satisfação pela dor, humilhação e, provavelmente, pelo susto provocado às suas vítimas. O que prova que as modernices sexuais de ordem alfabética (BDSM, ou Bondage, Dominância, Sadismo e Masoquismo), afinal não são tão modernas assim.

Séculos depois dos ataques do açoitador endiabrado de Londres, o sadomasoquismo encontra-se vivo e de boa saúde, até em Portugal! A prová-lo está a realização de mais um Gathering Party em Lisboa há algumas semanas, um evento que reúne pessoas interessadas em actividades sadomasoquistas e que já vai na sua 11ª edição. Nestes encontros, praticantes acérrimos, bem como curiosos iniciáticos, escravos como mestres, dominadores como submissos, podem socializar, chicotear, mumificar, torturar, enfim, dar vazão às suas fantasias sexuais sem medo de repreensão.

Quem participa nestas festas provavelmente não é o comum cidadão, mas uma minoria com interesses peculiares e especializados. O S&M tem uma característica curiosa: muitas vezes não envolve os genitais, não deixando de ser, por isso, uma actividade sexual. Por esse motivo, é uma área paradigmática da sexualidade, em que se demonstra que, para ter sexo, não são necessários órgãos sexuais. Excepto de vez em quando, para espetar umas agulhas.

Apesar de ainda ser olhado de esguelha pela maioria conservadora da população (mesmo aquela que utiliza ocasionalmente umas algemas ou mesmo, em dias de festa, um chicote), o BDSM não é nem patológico nem criminoso, desde que praticado entre adultos de sua livre vontade. Falta é, a muita gente, a capacidade de sair da sua perspectiva pessoal sobre o que deve ser o sexo, ou de se abstrair do folclore que por vezes o sadomasoquismo pode ter, para aceitá-lo como (mais) uma alternativa à posição do missionário.

Dizia um panfleto dos finais do século XVII, a propósito de Whipping Tom, “Some says he does it in pure love”. Uns bons açoites podem, afinal, ser um acto de amor, pelo menos quando dados e recebidos de plena vontade.

Texto originalmente publicado na revista Pública em 21/06/2008

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Orgasmos mal comportados





Nos idos anos de 1960, um casal de investigadores norte-americanos, de seu nome Virgínia Johnson e William Masters, decidiu lançar uma arrojada e original investigação. Queriam eles perceber exactamente que alterações fisiológicas ocorriam durante uma relação sexual. E como bons cientistas que eram, acharam que a única forma de o saberem seria através da observação e medição sistemáticas, em laboratório, do banal acto da cópula.


Puseram anúncios a pedir voluntários e esperaram. Contra as expectativas dos mais cépticos, várias centenas de pessoas fizeram fila para participar. Lá foram ao laboratório dos cientistas, despiram-se e foram ligados a uma parafrenália impressionante de maquinarias esquisitas. Baixaram-se as luzes e deixou-se que a magia da ciência acontecesse.


Dos registos de 10.000 orgasmos de 382 mulheres e 312 homens que Masters e Johnson realizaram, duas coisas pareceram evidentes. A primeira é que muitas mulheres eram capazes do fantástico dom da multiplicação dos orgasmos, ou seja, conseguiam saltitar levemente de clímax em clímax sem precisar de dormir uma sesta para recuperar. Os homens, pelo seu lado, não sendo capazes de tal proeza, comprovaram ter algo que lhes dificulta fingir um orgasmo, a famosa da ejaculação. A emissão dos mililitros da praxe foi registada como um dos sinais evidentes de que o homem já atingiu o seu auge.


Entre vários outros pormenores maiores ou menores descobertos pela parelha de investigadores, esses dois pareciam ser bastante certos. E durante muitos e muitos anos, ambos foram assumidos como verdades no âmbito da Sexologia. Mas, afinal, a dupla maravilha estava mesmo enganada. Como os mestres tântricos já sabiam há muito tempo, os homens, desde que bem treinados, conseguem obter a dádiva dos múltiplos orgasmos e alguns sortudos têm-nos mesmo sem terem que se esforçar.


Por seu lado, como Beverly Whipple, outra investigadora norte-americana, veio a descobrir nos anos 80, as mulheres que se queixavam de fazer “xixi” durante o sexo afinal não sofriam de um estranho caso de incontinência urinária. Quando analisado tal xixi, verificou tratar-se de um liquido em tudo semelhante ao esperma, excepto que sem espermatozóides. Afinal, as mulheres, ou pelo menos algumas delas, também ejaculam, tal como os homens.


Não é novidade que homens e mulheres são muito mais parecidos do que pensávamos. Há muito que a embriologia nos tinham ensinado que, ao nível do desenvolvimento do feto, o clítoris é equivalente ao pénis, os ovários aos testículos, os grandes lábios ao escroto, e aí por diante. Os estranhos mas significativos casos de orgasmos mal comportados à luz da tradição sexológica mostram-nos assim que até no auge do prazer, também as barreiras do género se dissolvem.

Publicado na revista Pública a 19/04/2009

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Natal assexual?



O Natal não é uma época do ano que, regra geral, se associe ao sexo. Afinal, a celebração da época natalícia refere-se a um nascimento ocorrido há anos suficientes para que seja plausível, ainda que remotamente, que o mesmo tenha resultado de um acto de procriação assexuado. De resto, em épocas bíblicas aconteciam coisas tão bizarras quanto mares que se abriam para dar caminho a fugitivos no deserto, pessoas que se transformavam em sal por olharem para trás e rios que se tingiam de sangue. E mais, sem que ninguém achasse nada disso fora do normal.

Ainda que as semelhanças entre a Virgem Maria, as amibas e as laranjas da Bahia sejam fascinantes, não deixa de ser interessante olhar para trás, esperando não nos transformar em estátuas de sal, e descobrir que algumas práticas natalícias têm na verdade origens bastante pagãs.

Em Roma Antiga, entre os dias 17 e 24 de Dezembro festejava-se a Saturnalia, um festival dedicado ao deus Saturno. Era uma época em que se sacrificavam animais, se trocavam presentes e se comia à grande e à Romana. Celebrando o solstício de Inverno e em preparação para a abundância que se esperava na Primavera, os famosos bacanais eram parte integrante do programa das festas.

Nos países anglo-saxónicos existe a tradição de pendurar ramos de visco no tecto durante a época natalícia. As pessoas que se encontrarem por baixo desse ramo terão que se beijar. Tal costume, que certamente fará muita gente andar de cabeça erguida em festas de Natal, umas para evitar serem apanhadas desprevenidas lá debaixo, outras para apanhar a pessoa certa no mesmo local, também tem as suas origens pagãs. Freya, a Deusa Nórdica do amor, terá colocado visco entre o céu e a terra e beijado todas as pessoas que por lá passassem, em gratidão pela ressurreição do seu filho.

Por sua vez o azevinho, mais comum decoração de Natal no nosso cantinho do mundo, ostenta as cores típicas da época, verde e vermelho, que por sua vez simbolizam o masculino e o feminino, com referências indirectas à fertilidade.

Apesar de poder continuar por aqui fora, nomeadamente com referências ao simbolismo das árvores erectas por essas ruas e casas fora, arriscando chocar mentes mais sensíveis e destruir para sempre a ideia da inocência do Natal, não o vou fazer.

Nestas épocas festivas, em que desesperamos sobre o que comprar para familiares, amigos e colegas, até a exaustão entretidos em jantares e festas de Natal, corremos o risco de ficar um pouco assexuais. Nem que seja porque as nossas energias estão concentradas noutras actividades.

Natal e sexo, porém, não têm de estar de costas voltadas, como de acordo com as suas influências milenares, nunca estiveram. O sexo é, afinal, uma celebração da vida. Como cantava o outro, vamos então todos sonhar com um Natal branco.

Publicado na revista Pública de 26/11/2010

domingo, 19 de setembro de 2010

Etiqueta quê?!



Sabia que é um gesto de boa educação desligar o telemóvel durante um encontro sexual? Que se devem tirar sempre as meias antes do acto, a não ser que o parceiro ou parceira indique o contrário? Que nunca se deve fixar o olhar no peito ou genitais de alguém que se acabou de conhecer, por muito proeminentes que os respectivos possam ser?

Pois bem, estas e muitas outras pérolas de sabedoria sexual podem ser encontradas num livro que recomendo a todos aqueles que têm ou pensam vir a ter algum tipo de vida sexual. É o “Nerve’s Guide to Sexual Etiquete” de Em e Lo (Plume, 2004). Isso mesmo, um livro sobre etiqueta sexual, um guia para os solteiros e casados do novo milénio, cheio de pequenos e grandes conselhos para quem possa ter incertezas no leito como na discoteca, no ménage à trois como no clube de swing.

Gostaria de partilhar as suas fantasias sexuais com a namorada mas receia melindrá-la? Não há problema, Em e Lo dão sugestões sobre como facilitar o processo. Não sabe qual a melhor forma de desaparecer após uma noite de sexo desenfreado com um desconhecido ou desconhecida? No worries! Este guia dá-lhe algumas pistas (Dica: escapulir durante a noite sem dizer adeus ou deixar, ao menos, uma nota de despedida, é considerado de mau tom!).

Devo esclarecer que não sou defensor de regras universais sobre como as pessoas se devem comportar, no sexo como noutras áreas da vida. Circunstâncias diversas, incluindo a cultura da pessoa e os seus modos de pensar e sentir irão condicionar as suas opções. Um infalível quebra-gelo de conversa, que pode até funcionar em muitas situações, poderá ser estranho ou inapropriado noutras. Por isso, nada como o bom senso para julgar, em cada momento, qual a forma mais adequada e, espera-se, polida, de agir.

Porém, no que toca à sexualidade, há um problema. É que, por regra, as pessoas nunca tiveram a oportunidade de esclarecer as suas dúvidas e desfazer ideias feitas sobre a interacção entre parceiros sexuais efémeros ou de longa data. A aprendizagem nestas lides faz-se, muitas vezes, da pior forma: através de alguém que sabe menos do que o próprio (versão adolescente); no “é suposto ser assim” das revistas femininas; no “faça-o-pino-e-pendure-se-no-lustre-que-ela-vai-gostar” das revistas masculinas; na estereotipia da pornografia; (ainda) na catequese e no mito sexualmente repressivo, tão enraizado entre nós.


Por isso, ainda que correndo o risco de ser por vezes limitativo e possivelmente, em breve, datado, este “Nerve’s Guide”, como outros livros semelhantes, podem ser úteis para orientar quem ainda não sabe que, para rejeitar alguém por quem não está interessado, basta dizer: “Obrigado. Sinto-me lisonjeado por estar interessado em mim, mas neste momento não estou disponível”.


Publicado na Pública dia 6/07/2008

sábado, 3 de julho de 2010

Calores de Verão




O Verão, as altas temperaturas e os destinos tropicais encontram-se associados no nosso imaginário à licenciosidade e à devassidão. No bom sentido, claro. Existe a ideia de que à medida que o mercúrio dos termómetros sobe, também os nossos barómetros de desejo subirão de forma incontrolável, deixando-nos vítimas de desígnios superiores a nós.


Mas será que existe de facto uma relação entre temperatura e sexualidade? Terá a ciência moderna comprovado essa realidade meia inventada pela mente perversa do senso comum? Na verdade as investigações sobre esse tópico são ainda relativamente inconclusivas.


Um dos indicadores que tem sido utilizado para avaliar a relação entre calor e sexo tem sido a incidência de violações ao longo do ano. Ao contrário das relações sexuais que ocorrem provavelmente aos milhões todos os dias em todo o mundo, dessas outras infelizes ocorrências existem registros que podem ser contabilizados. A maioria das investigações indica que é por finais do Verão, concretamente em Setembro que em países do Hemisfério Norte ocorrem os picos de violência sexual. Porém, certo é também que outras formas de violência, como guerras ou actos violentos não-sexuais, têm igualmente um pico por alturas de fins de Verão. Tal pico parece coincidir com o aumento sazonal da testosterona nos homens, hormona associada com a sexualidade e com a agressividade.


Os dados relativos à incidência de infecções sexualmente transmissíveis apontam mais ou menos para o mesmo, ou seja, para que há mais pessoas a portarem-se bem mal no final do Verão ou início do Outono. Por sua vez, os estudos sobre nascimentos indicam que a maioria das concepções terão lugar no Inverno.


De acordo com todos estes dados, todos parciais e limitados, parece que afinal o Verão não é mais do que uma boa campanha de marketing ao sexo, o outdoor que levará os consumidores, poucos meses mais tarde, a um certo consumo desregrado. Certo é que no Verão os corpos se expõem, sugestivos e oferecidos. As pessoas estão mais frequentemente de férias e, logo, com mais tempo para o sexo. O mesmo se passa nos países próximos do equador, para onde se vai descansar e divertir, e em que o próprio ritmo de vida será mais propício aos prazeres da carne.


A biologia certamente que ainda ditará muito do que somos e fazemos. Porém, o Homem consegue ser suficientemente criativo para ultrapassar as suas aborrecidas limitações biológicas. Em tempos remotos os nossos antepassados terão sido condicionados nas suas fúrias reprodutivas por períodos de cio. Para alguma coisa terão servido uns bons milhares de anos de evolução. Se hoje em dia por vezes achamos que não temos tempo para o sexo, pelo menos temos a grande vantagem de o poder gozar em qualquer altura do ano.

 
Originalmente publicado na Pública de 31/08/2008

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Padecimentos de Vénus



Mal sabia Vénus que o seu nome iria ser usado e abusado pelos comuns mortais. Pensaria lá a deusa do amor que se iriam chamar de venéreas a uma série de doenças muito pouco simpáticas. Pois durante muito tempo foi esse o nome que se lhes deu, decerto para desagrado da deusa. Hoje em dia, porém, já está fora de moda falar de doenças venéreas, assim como já não se usa a expressão “doenças sexualmente transmissíveis”.

Na designação mais moderna de infecções sexualmente transmissíveis, existe agora uma mensagem escondida. É que as doenças tanto podem dar um ar irritante da sua graça como armar-se em agentes secretos ao serviço de nenhuma majestade e muito menos de Vénus. Divertem-se saltitando levemente de nenúfar em nenúfar, qual elefante numa loja de porcelana, deixando a sua marca em quem sem querer se torna num lar para hóspedes indesejados.

É que quando alguém está doente, pensamos em ranhoca e olhares febris, em gente descabelada e a queixar-se de ter a cabeça quase a explodir. Pessoas assim estão doentes para lá de qualquer dúvida. Porém, uma pessoa infectada também tem uma doença mas pode, ao mesmo tempo, ter uma aparência saudável, dentes reluzentes e passar horas a exercitar-se vigorosamente no ginásio.

A mensagem escondida da mais recente designação atribuída às enfermidades de Vénus é, assim, uma que realça a ideia de que o aspecto de uma pessoa não diz nada sobre o seu estado de saúde. Pretende alertar os mais distraídos que poderão achar que o bronze ou o corpinho bem-feito são prova suficiente de que o seu parceiro sexual nunca poderá estar doente.

Mesmo uma mera gripe, que para muitas pessoas não será motivo suficiente para suspender a sua vida sexual, poderá ter muito que se lhe diga. Cerca de 80% das pessoas recentemente infectadas com o VIH desenvolvem uma infecção aguda, cerca de duas a quatro semanas após a exposição ao vírus. Os sintomas dessa infecção podem ser dores de garganta e de cabeça, fadiga, perda de apetite, febre, entre outros. Não é por acaso, por isso, que muitas vezes essas infecções passem despercebidas, levando a que se percam oportunidades de diagnóstico e tratamento precoces.

O problema é que, durante a infecção aguda, o portador do VIH é muito mais infectante. Quer isso dizer que as probabilidades desse indivíduo infectar alguém com quem mantenha uma relação sexual são muito maiores do que mais tarde, na fase “invisível” da doença. Como o VIH e doenças afins só acontecem aos outros, uma pessoa que se infectou recentemente não irá fazer grande coisa em relação à sua “gripe” e porventura passar os seus bichinhos a terceiros, sem o saber. É que infelizmente, às vezes, uma gripe não é apenas uma gripe e Vénus pode também ser deusa de coisas menos boas do que o amor.

Originalmente publicado na Pública de 14/09/2008

quarta-feira, 14 de abril de 2010

A fabulosa vida sexual das trufas





Quem iria imaginar que as boas das trufas, do fundo dos seus esconderijos subterrâneos, teriam uma vida sexual como outra pessoa qualquer? É que de tão discretas que são, nunca ninguém suspeitou que as ditas túberas sequer se reproduzissem da forma mais divertida que existe. Nem tão pouco alguma vez se ouviu falar do problema da gravidez adolescente das trufas ou do aumento das taxas de infecção pelo VIT (vírus da imunodeficiência trufal). Ainda que, bem que vistas as coisas, porque não terão as pobres coitadas direito ao seu prazer? Não serão as trufas também gente, no que toca ao sexo?

Mas vamos lá por partes. Uma equipa de investigadores Franceses da Universidade de Nancy liderados pelo Dr. Francis Martin, decidiu estudar o genoma das trufas. Os resultados foram agora publicados e revelam alguns dos segredos da vida íntima dos bichos. Que por sinal não são bichos, mas tubérculos, os frutos de uma espécie de fungo que cresce junto às raízes de árvores, em particular de carvalhos e castanheiros. E a maior descoberta de todas foi, de facto, que afinal esses tubérculos são seres sexuais, ou seja, têm dois “géneros” e é através do cruzamento entre eles que surge a diversidade trufal.

E porque se lembraria alguém de se dedicar a tão fastidiosa tarefa, quanto a de investigar o código genético desses peculiares seres, perguntam muito bem? Não foi por acaso. As trufas são consideradas iguarias de primeira, um produto gastronomicamente muito apreciado pelos gourmets. Por serem difíceis de encontrar, chegam a custar 6.000 dólares por quilo! Conhecer os detalhes da respectiva programação genética é uma chave importante para melhor produzir e assim ganhar uns trocos com as ditas das trufas.

Por terem o peculiar hábito de se esconder debaixo do chão, torna-se um tanto difícil encontrar parceiros sexuais, até porque ainda ninguém se lembrou de criar um site de encontros para as trufas na Internet, e bares de solteiros dedicados à espécie não existem. Por isso algumas trufas desenvolveram a capacidade de produzir a hormona libertada pelos porcos e javalis na altura do cio, emanando um aroma de tal forma potente que põe os pobres animais doidos de desejo. Neste caso de consumir as trufas. Assim as túberas apanham boleia dos ditos animais e espalham os seus esporões por outras paragens, depois de consumidas e processadas pelo tubo digestivo dos animais, por assim dizer.

Muito podem os humanos aprender com as trufas! Apesar de pouco valorizadas e muito recalcadas, as feromonas humanas sempre tiveram um importante papel na atracção sexual entre as pessoas. Transmissores químicos que são, as feromonas transmitem uma mensagem odorífera de desejo e depravação de alguma forma reminiscente da emitida pelas trufas. Excepto que estas precisam do seu cheiro para perpetuar a espécie e nós, humanos, já não. Assim se inventaram perfumes, águas-de-colónia e desodorizantes para disfarçar os odores corporais que se tornaram objecto de repulsa e repressão, quando na verdade a sua função é bem mais interessante.

Por sua vez as trufas não só não têm vergonha do seu cheiro como o usam descaradamente em prol da sua vida sexual que, caso contrário, seria tão monótona quanto o estudo do seu próprio código genético. Misturando-se e multiplicando-se podem assim continuar a deleitar quem tenha a possibilidade e se dê ao luxo de consumir tão requintado ingrediente.

Quanto a nós humanos, há quem diga que, no fundo, no fundo, todos somos uma trufa rechonchuda à espera do seu porquinho. Resta saber se algum dia assumiremos a atitude das trufas em relação ao seu cheiro e se, pelo menos de vez em quando, o utilizaremos como o afrodisíaco que ele pode ser.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Furor uterino



Na Grécia Antiga, bem antes das peripécias das senhoras desesperadas de Wysteria Lane, já várias mulheres eram acometidas daquilo a que hoje alguns chamariam de ataque de nervos. Estrebuchavam, tinham falta de ar e eventualmente desmaiavam sem mais nem ontem. Hipócrates, pai espiritual de médicos e psicólogos da actualidade, foi dos primeiros a tentar explicar tais espalhafatosos fenómenos.

Para ele, a causa do problema dessas senhoras seria o respectivo útero. Qual animal selvagem, esse órgão despregar-se-ia do seu local habitual, começando a subir corpo acima, provocando falta de ar e as palpitações típicas de tais manifestações. Por fim, causava o desfalecimento das coitadas, esgotadas com tanta agitação interna. O nome que ele deu a tal perturbação: Histeria.

Hoje em dia sabemos que nada de especificamente orgânico causa a histeria. Muito menos úteros enraivecidos a passearem pelo corpo das senhoras suas vítimas. Até porque homens, conhecidos por não terem úteros, também podem por vezes encontrar-se à beira de ataques de nervos desse tipo.

Mais sabemos que a causa de tais perturbações, hoje classificadas em respeitáveis manuais de psiquiatria como Perturbações de Conversão, é puramente psíquica e, de acordo com o senhor Freud e companhia, têm origem sexual infantil. Produtos de uma energia sexual mal contida, os sintomas físicos dessa perturbação traduzirão um sofrimento emocional e de alguma forma simbolizam os problemas que estiveram na origem do problema.

Mas sem querer entrar em detalhes técnicos aborrecidos, importa referir que o fanico histérico tem com frequência um componente de ganho secundário. Significa isso que tais ataques muitas vezes surgem como resposta a situações desconfortáveis ou embaraçosas para a criatura em causa.

Chegou cedo a casa e deu de caras com o seu marido na cama com a sua melhor amiga? Caia para o lado e quando acordar faça de conta que nada aconteceu. O seu chefe está num daqueles dias em que não o larga com coisas e mais coisinhas para fazer? Tenha um ataque de falta de ar e desfaleça. O seu marido insiste em ir ao futebol no dia em que os seus pais vêm para almoçar? Rebole no chão revirando vigorosamente os olhos e espume pela boca, que a coisa se resolverá com facilidade.

Sendo uma das instituições da cultura latina, pode-se afirmar que o chilique vistoso é assim também muito conveniente como solução milagrosa para todo e qualquer problema.

Apesar de separados por milénios de ciência, quer Hipócrates quer Freud atribuíram essa fascinante perturbação a uma mesma causa: a falta de utilização do útero. Por outras palavras, as senhoras histéricas encontrar-se-iam à beira de um ataque de nervos devido à falta de sexo ou, mais especificamente, por ainda não terem sido mães.

Sabemos bem que falta de sexo pode levar alguns a uma espécie de furor uterino, mesmo naqueles que nasceram sem tão útil órgão. Mas na verdade ainda hoje não compreendemos o fenómeno da conversão na sua totalidade, apesar de ser cada vez mais raro no mundo sexualmente liberto em que vivemos. De qualquer forma, ele induz um sofrimento que é bem real, mesmo que de origem psíquica e não física.

A boa notícia é que é uma perturbação tratável mesmo sem ser necessário recorrer a medicação. A terapêutica proposta? Uma boa de uma psicoterapia. Quanto ao sexo puro e duro, não sendo a solução, decerto que poderá ser um contributo simpático para o processo.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Pecados e outras coisas pecaminosas

O nome deste meu novo blogue provocou algumas reacções interessantes. Tudo por causa da expressão “coisas pecaminosas”. Começo por esclarecer que não, não sou católico de forma alguma. Sou ateu de gema e sem vergonha. Também não considero o sexo como uma coisa pecaminosa. Penso que existem muitos motivos para não praticar sexo em situações específicas, mas nenhuma delas se refere à possibilidade de ir parar ao Inferno.



Apesar disso, a noção de pecado encontra-se tão enraizada na nossa cultura que é impossível passar-lhe ao lado. Penso, aliás, que ela nos dá imenso jeito. Ajuda-nos a perceber, sem perder muito tempo, quais são as coisas que nos dão prazer mas que devíamos evitar se realmente quiséssemos. Por algum motivo gula, inveja, preguiça, ira e as restantes, abundam neste nosso mundo.


Mas a luxúria é, sem dúvida, o pecado mais interessante e aquele que aqui mais nos interessa. Tem, porém, um problema: exactamente a que se refere tal pecado? A querer ter sexo? A gostar de ter sexo? A querer praticá-lo muitas vezes? A ter prazer com ele? É difícil perceber. E, por exemplo, as actividades sexuais que não envolvem os genitais, como por exemplo algumas práticas sadomasoquistas, continuam a ser pecado? E o sexo oral, que para algumas pessoas não é sexo, é pecado? E então um beijo de língua, assim, mais prolongado, também o é?


A ambiguidade inerente ao conceito de luxúria deixa-nos sem saber muito bem quando é que, aos olhos da Igreja Católica Apostólica Romana, estamos a incorrer na possibilidade de ir parar à tal estância muito bem aquecida e com gente que se portou mal durante a vida e que por lá se porta ainda pior.


Como a Igreja não pode opor-se ao sexo em si – sem ele não nos podemos multiplicar – fica essa ideia vaga de que tudo o que queiramos fazer e que envolva pessoas mais ou menos despidas e a brincar com as suas partes pudibundas é pecado.


E verdade é que essa noção do fruto proibido tem uma consequência. Há uma excitação acrescida quando pensamos estar a fazer uma coisa que não devíamos. A maçã do vizinho parece sempre mais vermelha e apetitosa do que a outra macilenta que temos na nossa cesta da fruta.


O pecado acaba por ser um ingrediente que torna mais excitante essa coisa já em si excitante do sexo. Por isso as pessoas continuam a ter relações sexuais sem usar preservativo, mesmo quando sabem estar em situações de risco. Por isso alguns homens gostam de vestir roupa interior feminina. Por isso também, muitas pessoas dão a clássica facada no casamento.


Não é por ser pecado. É por de alguma forma essas serem práticas não convencionais e que se encontram à margem de um certo padrão de normalidade, mais social do que estatístico. E que por esse motivo se tornam mais apetecíveis. É aí que mora o pecado de hoje.


Longe de indesejável, o pecado, essa noção do proibido-apetecido, é um condimento agridoce que utilizamos para dar algum sabor às nossas vidas. Perdeu o cheiro a enxofre que já teve em tempos e serve agora para dar um ar maroto aos nomes de iogurtes e de blogues. Entre outras coisas.