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domingo, 13 de outubro de 2013

Controladores implacáveis




Mais cedo ou mais tarde, as máquinas acabariam por se virar contra nós. Do "Exterminador Implacável" ao "Matrix", passando pelo "Eu, Robot", há já muito tempo que a ficção científica nos alertava para essa possibilidade. Nós, distraídos, sempre achamos que esse cenário estaria ainda muito longe. Talvez nunca esperássemos que o monstro por detrás da máquina fossemos nós próprios e não um mega-computador com consciência própria.

Basta uma breve pesquisa na Internet para encontrar variadissimas ferramentas onde supostamente será possível verificar com uma probabilidade de erro de apenas alguns metros, onde se encontra a nossa cara-metade. Como cada vez mais pessoas hoje em dia carregam no bolso um aparelhinho localizável desde que se tenha a tecnologia certa muita gente estará, mesmo sem disso ter consciência, a ser vigiada pelo seu controlador e patologicamente ciumento mais-que-tudo. 

Independentemente de tais sítios funcionarem ou não, facto é que a tecnologia para fazer esse tipo de vigilância existe e não se limita aos satélites. Funções como recibos de SMS e depósito directo de mensagens, para não falar de câmaras instaladas em computadores e telemóveis, são novas armas ao dispor do Big Brother em cada um de nós. Quem disse que quem ama confia? As evidências parecem demonstrar que quem ama desconfia. E muito.

Um amigo de Melbourne, na Austrália, confessava-me recentemente estar farto do controlo excessivo da sua namorada que vive em Praga, na República Checa. Ela liga-lhe constantemente para saber onde ele está, com quem está e o que está a fazer. Têm tido grandes discussões através de Messenger porque ela suspeita que nos momentos em que ele não esta online certamente estará com outra(s). Se a distancia brutal que os separa (cerca de 16.000 km) poderá espicaçar as inseguranças da pequena, não deixa de ser curioso que a mesma tecnologia que permite a manutenção do improvável romance entre os dois, é a mesma que está a tornar a sua relação insustentável.

Pois é. O futuro previsto pelos génios da fantasia e da ficção está aí a bater-nos à porta. O Big Brother está a observar-nos e tem um rosto muito familiar. Detectives privados e o pouco nobre hábito de vasculhar as papeladas e os bolsos da companheira ou companheiro apenas para descobrir aquilo que se preferia não saber, são velhas realidades. A Internet e todas as novas tecnologias de comunicação apenas fornecem formas mais sofisticadas para fazer exactamente o mesmo de forma mais eficaz. 

É que o ciberespaço à semelhança do nosso planeta encontra-se povoado por pessoas, não por robots. Por esse motivo, o que lá se encontra são muitas vezes extensões virtuais do monstro que vive na casa ao lado ou que dorme na nossa cama.

Publicado na revista Pública em Setembro de 2008

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

2012 Odisseia sexual




De acordo com a socióloga e activista norte-americana Gayle Rubin, apenas uma prática sexual foi inventada no século XX. E mesmo essa já na ida década de 1930 – o eroticismo braquiopróctico (também conhecido como fisting ou fist fucking, a inserção do punho e parte do braço no ânus). Tudo o resto já tinha sido descrito, e certamente praticado, por gente extravagante como Sade, Sacher-Mashoch, para não falar dos loucos Romanos antigos.

Talvez para choque de muitos, o sexo efectivamente não mudou muito em milhares de anos. Toda a gente continua a fornicar como sempre fornicou, mais orgasmo menos orgasmo, mais orifício menos orifício.

Assim sendo, o que podemos esperar que mude em cinco anos? Se é improvável que se inventem novas práticas, o que poderá mudar são os contextos associados ao sexo. E aí não devemos menosprezar o impacto da tecnologia. De facto, algo que os Romanos antigos não faziam era marcar encontros com estranhos através da Internet. O célebre Marquês nunca terá sido confrontado com uma parceira que lhe tenha pedido os resultados do seu último teste para o VIH. E, por muito que algumas raparigas possam ter tentado, é improvável que tenham conseguido provar para lá de qualquer dúvida que Giacomo Casanova era o pai do seu bebé.

Então que novas tecnologias poderão estar disponíveis em cinco anos? Face à incerteza de que a miraculosa vacina para o VIH venha a surgir, mais provável é que outras estratégias preventivas sejam disponibilizadas. Algumas das que se encontram em ensaios clínicos são a profilaxia pré-exposição ou PPrE e os microbicidas. A PPrE é uma espécie de pílula contraceptiva, mas aplicada à prevenção do VIH. Poderá ser utilizada por quem pensa estar frequentemente em risco de contrair o VIH e será tomada de forma mais ou menos contínua para prevenir a infecção.

O problema é que a sua eficácia será, na melhor das hipóteses, de cerca de 70% e a comunidade científica já está em alvoroço perante a possibilidade das pessoas começarem a fazer amor, por assim dizer, descontroladamente. Os microbicidas levantam questões semelhantes. Tratam-se de géis ou espumas que se colocam na vagina ou ânus e que criam uma barreira química que destrói o vírus durante uma relação sexual desprotegida.

É também possível que em breve os testes caseiros para o VIH surjam à venda nas farmácias. Mesmo que contra-indicado, é provável que muita gente os utilize para avaliar, no último minuto, se irão ou não ter sexo desprotegido com o parceiro que acabaram de conhecer na Internet ou noutro canto obscuro qualquer.

Muitos mais brinquedos decerto nos ajudarão a ter uma vida sexual mais feliz, segura e, espera-se, satisfatória. Muitos desses levantarão novas questões, morais e moralistas, sociais e sociológicas. Mas tal como o sexo, essa é outra realidade que não se alterou ao longo dos milénios. 

Artigo futurista publicado na revista Pública dedicada ao ano de 2012 em 28/12/2008